Os desafios de fazer uma pesquisa


A pergunta que por meses intrigou os santa-cruzenses foi respondida pelo Instituto Methodus antes mesmo de os eleitores chegarem às urnas no dia 7 de outubro. Uma semana antes das eleições, uma pesquisa publicada pela Gazeta do Sul já apontava a possibilidade de Telmo Kirst (PP) se tornar o novo prefeito de Santa Cruz do Sul. Mas como é possível que um instituto aponte com antecedência um resultado que só seria definido na hora do voto?

A socióloga e diretora do Methodus, Margrid Sauer, explica que a forma de realização de uma pesquisa é o segredo para que o levantamento se aproxime o máximo possível do resultado real. Mesmo com uma amostragem de 400 pessoas, em um município de 94 mil eleitores como Santa Cruz do Sul, por exemplo, a forma como os questionários são aplicados permite que se chegue a esse resultado. Para fazer corretamente uma pesquisa, o perfil dos entrevistados deve ser feito com base em dados confiáveis acerca da população. No caso de uma pesquisa eleitoral, o perfil dos eleitores deve ser traçado com base em dados do IBGE e do Tribunal Regional Eleitoral. A partir disso, são definidos os perfis de eleitores a serem entrevistados. Se a maioria dos votantes é de mulheres, por exemplo, a maior parte dos questionários deverá ser aplicada a esse público. O mesmo método aplicado entre os santa-cruzenses foi utilizado pelo instituto para pesquisas em outros 41 municípios gaúchos nesse pleito. “Todos esses cuidados envolvem o planejamento que antecede a ida a campo”, explica Margrid. Mas a socióloga explica que a pesquisa eleitoral tem características distintas dos outros tipos de levantamentos – como os de satisfação de serviços e produtos. Quando o tema é a decisão dos eleitores, a tendência é que o resultado mude diariamente, de acordo com as campanhas. “É isso que muitas vezes as pessoas não entendem. A pesquisa mostra aquele momento exato em que os pesquisadores estiveram na cidade”, afirma Margrid. Dali para a frente, o cenário pode ser alterado. “Quando a gente acompanha o processo eleitoral ao longo de um mês, fica mais fácil identificar o que está acontecendo. É possível saber se um candidato está em uma linha de crescimento ou queda. Quando se faz apenas uma pesquisa, é mais difícil”, afirma. A última pesquisa do instituto sobre a disputa para a Prefeitura santa-cruzense foi realizada de 25 a 27 de setembro e publicada pela Gazeta do Sul no dia 29, uma semana antes da votação. A partir dela, foi possível descobrir que Telmo já tinha alcançado 41,5% da preferência. No entanto, o candidato foi eleito com uma vantagem maior – 51,91%. Para Margrid, esse cenário já era esperado. Como em Santa Cruz o Methodus realizou três pesquisas ao longo do mês, foi possível traçar uma tendência, nesse caso o crescimento da oposição. A redução da diferença entre Kelly Moraes (PTB), que apareceu na primeira pesquisa com 10 pontos de vantagem, pôde ser detectada pelos pesquisadores ao longo dos trabalhos. Outro exemplo foram as pesquisas feitas diariamente em Porto Alegre, onde a cada dia o instituto apontava uma pequena variação nos resultados. Foi possível traçar a tendência de crescimento de José Fortunati (PDT) e a queda de Manuela D’Ávila (PCdoB). A primeira pesquisa Correio do Povo/Instituto Methodus após o início do horário da propaganda eleitoral gratuita nos três maiores colégios eleitorais do Interior revela que o candidato do PDT, Alceu Barbosa Velho, segue na liderança em Caxias do Sul. Agilidade é fundamental Durante o período eleitoral, os institutos de pesquisa costumam ter mais trabalho do que em outras épocas do ano. O Instituto Methodus, por exemplo, conta com 10 pesquisadores que trabalham no escritório, em Porto Alegre. No entanto, durante o período de eleições, esse total é elevado para 50 pessoas. Além da maior demanda, o instituto mantém essas equipes para garantir que os levantamentos sejam aplicados com agilidade. Quando as pesquisas envolvem eleições, o método precisa ser mais rápido do que em outros tipos de levantamentos. Os pesquisadores são enviados para os municípios, onde ficam no máximo por dois dias. O ideal é que a equipe consiga concluir os questionários em apenas um dia. “Quanto menos tempo a gente fica na cidade, menos influência a pesquisa sofre. Nós precisamos captar exatamente o que está acontecendo, da forma mais fiel possível”, explica a diretora Margrid Sauer. Como é feita uma pesquisa Perfil do município: com base nos dados do Censo realizado pelo IBGE e informações do TRE, o instituto traça um perfil dos eleitores dos municípios, conforme sexo, idade, escolaridade e renda. Esse banco de dados é atualizado regularmente. Definição dos entrevistados: em cidades do interior o Methodus utiliza como média 400 entrevistas. Em Santa Cruz, por exemplo, onde dos 94 mil eleitores, 49,7 mil são mulheres, a maioria dos questionários precisa ser aplicada nesse público. Os questionários também são divididos de acordo com a população dos bairros, da zona urbana e da zona rural. Aplicação dos questionários: antes de sair do instituto, os pesquisadores recebem uma lista com o perfil de cada entrevistado que precisam localizar em determinados pontos da cidade. Por exemplo: mulher, de 25 anos, com renda até dois salários mínimos e com ensino médio completo. Os questionários não podem ser aplicados em ruas onde existem comitês de partidos e nem em áreas onde estão sendo realizadas carreatas, por exemplo. Checagem dos dados: quando os questionários retornam para o instituto, em Porto Alegre, eles passam por uma etapa de checagem das informações. Pelo menos 20% das pessoas entrevistadas recebem ligações para conferir as respostas. Esse controle dos dados é importante para garantir a fidelidade das informações e evitar possíveis fraudes nas pesquisas. Análise dos resultados: depois que as informações são conferidas, elas passam por um período de análise. Em média, entre a coleta e a entrega do resultado, são necessários quatro dias de trabalho.


Fonte: http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/372980-os_desafios_de_fazer_uma_pesquisa/edicao:2012-10-13.html
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