O segundo turno das eleições presidenciais de 2026 terminou de forma surpreendente. Se, no primeiro turno, já existia uma perspectiva de vantagem para Flávio Bolsonaro (PL), que conquistou 56.104.503 votos e estabeleceu uma vantagem sobre seu adversário, Lula (PT), no segundo turno essa percepção parecia ainda mais consolidada.
O senso comum apontava para uma vitória de Flávio Bolsonaro, sobretudo em razão de um argumento histórico frequentemente relembrado: candidato que termina o primeiro turno à frente tende a vencer também o segundo. Outro fator importante nessa avaliação foram as pesquisas eleitorais divulgadas durante o segundo turno, que indicavam, de maneira recorrente, Flávio Bolsonaro à frente, enquanto Lula permanecia derrotado, em segundo, com diferenças geralmente situadas dentro da margem de erro.
O conjunto desses fatores passou, então, a ser interpretado por meio de novas e, por vezes, confusas análises. Diferentes explicações foram propostas para o comportamento dos eleitores, sugerindo a existência de um contingente expressivo de indecisos, o retorno dos que se abstiveram, além de eleitores independentes, envergonhados e insatisfeitos.
Poucos compreenderam o significado dos elevados níveis de rejeição, como o principal elemento da decisão do voto, inclusive entre os eleitores que votaram nos demais candidatos no primeiro turno. Em grande medida, os votos destinados a esses candidatos expressavam a posição de eleitores para os quais a rejeição aos principais concorrentes se manifestava de maneira mais intensa, levando-os a buscar alternativas fora da polarização, mesmo sem convicção na escolha que vinham fazendo.
Considero, ainda, necessário esclarecer dois conceitos que serão considerados nesta análise. O primeiro deles é a compreensão da abstenção. Entre os eleitores contabilizados como ausentes, encontram-se cidadãos em diferentes condições: eleitores que já faleceram, mas cujos óbitos ainda não foram informados a Justiça Eleitoral; pessoas impossibilitadas de comparecer por motivos de saúde, dificuldades de locomoção, condições sociais ou impedimentos legais.
De acordo com as regras da Justiça Eleitoral, a ausência a três eleições consecutivas, sem justificativa ou regularização, pode resultar no cancelamento do título eleitoral. Até que isso ocorra, esses eleitores podem continuar integrando o cadastro eleitoral e, consequentemente, as estatísticas de abstenção. Portanto, estamos tratando de uma base de dados onde, diferentes situações de impossibilidade de comparecimento acabam sendo contabilizadas juntamente com a decisão voluntária de não votar.
A abstenção como escolha legítima certamente existe, mas considero equivocado presumir que ela represente a condição predominante entre os eleitores ausentes. Essa compreensão torna-se ainda mais necessária em uma eleição na qual a redução da abstenção foi apontada como um dos principais fatores responsáveis pela virada eleitoral de Lula no segundo turno.
O segundo ponto a ser esclarecido é a crença de que os votos destinados aos demais candidatos no primeiro turno seriam naturalmente transferidos para Flávio Bolsonaro (PL), representante da direita, no segundo turno. Como salientei na abertura deste artigo, a escolha por candidatos fora da polarização pode expressar uma rejeição profunda tanto a Lula quanto a Flávio Bolsonaro. Compreender esse comportamento é fundamental para interpretar os dados apresentados no gráfico que acompanha esta análise, onde comparo os resultados do primeiro e do segundo turno buscando revelar a dinâmica dos votos nesta eleição.
Para uma interpretação adequada desses resultados, proponho estabelecer uma convenção metodológica: consideremos que os eleitores que votaram em Lula no primeiro turno tenham repetido seu voto no segundo. Da mesma forma, admitamos que aqueles que votaram em Flávio Bolsonaro também tenham mantido sua escolha.
Os dados abaixo revelam que a soma dos votos conquistados pelos dois candidatos no segundo turno, além daqueles que já haviam obtido no primeiro, chegou a 14.098.232 votos adicionais.
De posse dessa informação, podemos questionar: de onde vieram esses votos?
Primeiro identificamos a redução da abstenção, do primeiro para o segundo turno, que representou o comparecimento adicional de 2.960.239 eleitores. Da mesma forma, a redução dos votos brancos e nulos, acrescentando 870.302 e 950.944 votos, respectivamente, no segundo turno. Adicione-se ainda, os mais de 9 milhões de eleitores que votaram nos demais candidatos no primeiro turno, grupo que representa o maior contingente de votos em disputa no segundo turno!
Ao somarmos essas categorias, chegamos ao mesmo número de votos adicionais conquistados pelos dois candidatos no segundo turno, Lula obteve 10.376.694 e Flávio 3.721.538, totalizando 14.098.232 de votos.
Dessa maneira, ao considerarmos que Lula conquistou mais de 10 milhões de votos adicionais no segundo turno, enquanto Flávio Bolsonaro obteve pouco mais de 3,7 milhões, podemos sugerir que os eleitores que haviam optado pelos demais candidatos no primeiro turno tiveram, provavelmente, um papel decisivo na virada eleitoral de Lula.
Se somarmos a redução da abstenção (2.960.239), dos votos brancos (870.302) e dos votos nulos (950.944), chegaremos a 4.781.485 votos. Mesmo que todos esses votos adicionais tivessem sido destinados exclusivamente a Lula, ainda faltariam 5.595.209 votos para explicar seu crescimento no segundo turno.
Portanto, considerando a premissa metodológica estabelecida anteriormente, pelo menos 5,5 milhões dos 9,3 milhões de votos destinados aos demais candidatos no primeiro turno precisariam ter contribuído para o crescimento da votação de Lula. Isso representa aproximadamente 60% daquele contingente e reforça a importância da decisão desses eleitores para a compreensão da virada eleitoral.
Sob essa perspectiva, os resultados reforçam a hipótese de que a intensidade da rejeição a Flávio Bolsonaro tenha sido superior à rejeição a Lula, dificultando a transferência de votos dos eleitores que optaram por candidatos fora da polarização no primeiro turno.
Ao rastrearmos a dinâmica dos votos, apresentamos uma perspectiva renovada para a compreensão dos resultados eleitorais, ultrapassando as interpretações mais óbvias e buscando explicações justamente naquilo que, à primeira vista, parece ser a maior incoerência do pleito.
José Carlos Sauer – Diretor do Instituto Methodus, especialista em comportamento político e graduado em Filosofia Política. Há mais de 25 anos atende disputas eleitorais, conduzindo pesquisas de opinião, interpretação de dados e análises, além do direcionamento estratégico para campanhas. Se você busca uma consultoria estratégica, fale conosco por WhatsApp ou e-mail
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