Nas eleições para o Senado, quando duas cadeiras estão em disputa, o eleitor não toma apenas uma decisão, ele toma duas. A primeira costuma ser mais previsível, guiada por preferências políticas consolidadas. A segunda, porém, revela muito mais sobre o comportamento real do eleitor: ela é estratégica, volátil e frequentemente decisiva.
No Rio Grande do Sul, a análise das últimas eleições mostra que a disputa pela segunda vaga ao Senado costuma ser a mais competitiva da eleição, definida menos por liderança consolidada e mais pela dinâmica do chamado segundo voto.
Essa característica aparece com clareza quando observamos os resultados das eleições anteriores. Em 2002, Sérgio Zambiasi (PTB) liderou a eleição ao Senado com cerca de 34% dos votos válidos, enquanto Paulo Paim (PT) conquistou a segunda vaga com aproximadamente 24%, apenas cerca de 1 ponto percentual à frente de Emília Fernandes (PT). A diferença pequena entre segundo e terceiro colocado ilustra como a segunda cadeira costuma ser definida em disputas muito mais apertadas.
O mesmo padrão se repetiu em 2010. Paulo Paim (PT) foi o mais votado com aproximadamente 34% dos votos válidos, seguido por Ana Amélia Lemos (PP) com cerca de 30%. O terceiro colocado, Germano Rigotto (MDB), registrou cerca de 21%, ficando relativamente próximo da disputa pela segunda vaga.
Já em 2018, Luis Carlos Heinze (PP) foi eleito com aproximadamente 22% dos votos válidos, enquanto Paulo Paim (PT) garantiu a segunda vaga com cerca de 18%, apenas dois pontos percentuais à frente de Beto Albuquerque (PSB), que obteve cerca de 16%.
Os números indicam um padrão consistente: enquanto o primeiro colocado tende a abrir vantagem maior, a disputa pela segunda vaga costuma permanecer aberta por mais tempo e ser definida em margens mais estreitas. Esse comportamento está diretamente ligado à forma como o eleitor utiliza seus dois votos.
O primeiro voto geralmente expressa uma preferência política mais consolidada, afinidade ideológica, identificação partidária ou reconhecimento de trajetória pública. O segundo voto, por sua vez, tende a ser mais flexível. Ele pode representar equilíbrio político, menor rejeição ou simplesmente o reconhecimento de um nome conhecido.
Na prática, isso faz com que a segunda vaga seja disputada em um campo eleitoral mais amplo e mais volátil, com maior número de candidatos competitivos.
Esse comportamento também ocorre em um contexto de transformação da participação eleitoral. Entre 2002 e 2018, o desalento eleitoral, que reúne abstenções, votos brancos e nulos, cresceu de forma consistente no Rio Grande do Sul. Em 2002, cerca de 26,8% dos eleitores aptos não expressaram voto válido em nenhum candidato ao Senado. Em 2010 esse percentual chegou a 31,4%, e em 2018 alcançou aproximadamente 40,9%. Esse crescimento indica um eleitorado progressivamente mais distante da disputa ao senado e contribui para ampliar a volatilidade do voto, especialmente na escolha da segunda vaga.
Os dados mais recentes da pesquisa realizada pelo Instituto Methodus indicam que a eleição ao Senado em 2026 ainda se encontra em fase inicial de consolidação. Na menção espontânea, o grau de indefinição é extremamente elevado: 85% dos eleitores não souberam indicar um candidato ao Senado, o que revela baixo nível de cristalização das candidaturas neste momento pré-eleitoral.
Quando os nomes são apresentados aos eleitores, o cenário se torna mais definido, mas ainda fragmentado. Na simulação estimulada aparecem os seguintes percentuais:
Mesmo o primeiro colocado aparece abaixo de 20%, enquanto um grupo amplo de candidatos se concentra na faixa entre 8% e 15%. Esse tipo de distribuição é típico de eleições com duas vagas: a liderança começa a se delinear, mas a segunda vaga permanece aberta por mais tempo. Outro elemento importante para compreender a dinâmica da disputa é a rejeição eleitoral. Na pesquisa Methodus, os principais nomes apresentam os seguintes índices de rejeição:
Em eleições com duas cadeiras, rejeições elevadas podem limitar a capacidade de um candidato captar o segundo voto do eleitor. Por essa razão, candidaturas com menor rejeição relativa e maior aceitabilidade frequentemente possuem vantagem na disputa pela segunda vaga.
A análise das eleições anteriores e do cenário atual sugere, portanto, que a eleição ao Senado no Rio Grande do Sul tende a ser definida não apenas pela preferência principal do eleitor, mas também pelo comportamento em relação ao segundo voto.
Enquanto a liderança da eleição costuma refletir preferências mais consolidadas, a segunda vaga emerge de um espaço eleitoral mais volátil, influenciado por rejeição, visibilidade e dinâmica de campanha.
Em 2026, tudo indica que esse padrão deve se repetir. Com elevado nível de indecisão e vários candidatos posicionados em patamares semelhantes de intenção de voto, a disputa pela segunda vaga ao Senado no Rio Grande do Sul tende novamente a ser um dos espaços mais competitivos e imprevisíveis da eleição.
José Carlos Sauer – Diretor do Instituto Methodus, especialista em comportamento político e graduado em Filosofia Política. Há mais de 25 anos atende disputas eleitorais, conduzindo pesquisas de opinião, interpretação de dados e análises, além do direcionamento estratégico para campanhas. Se você busca uma consultoria política para sua disputa eleitoral, fale conosco por WhatsApp ou e-mail.
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Os dados eleitorais históricos utilizados nesta análise têm como fonte o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os dados atuais são provenientes de pesquisa quantitativa realizada pelo Instituto Methodus, registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número RS-02054/2026, realizada entre 18 e 24 de fevereiro de 2026, com 1.010 entrevistas presenciais, margem de erro de ±3 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.







