O Território Comum dos Brasileiros – O Que os Eleitores Esperam de seus Líderes

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Jonathan Haidt, autor de A Mente Moralista – Por que Pessoas Boas São Segregadas por Política e Religião, apresenta como propósito central de sua obra compreender por que é tão difícil nos entendermos.

Segundo o autor, somos obrigados a conviver uns com os outros e, por isso, deveríamos ao menos buscar compreender por que nos segregamos com tanta facilidade em grupos rivais, cada um deles plenamente convencido de sua própria moralidade.

Haidt alerta que a natureza humana não é intrinsecamente moral, mas intrinsecamente moralista, crítica e propensa ao julgamento (Haidt, 2020). Nesse sentido, o raciocínio moral constitui uma habilidade que utilizamos para justificar nossas ações e defender os grupos aos quais pertencemos.

Tomarei emprestada a abordagem de Haidt sobre nossa natureza moralista para interpretar, à luz de pesquisas qualitativas, os valores apontados como prioritários pelos eleitores quando convidados a descrever aquilo que, em seu entendimento, caracteriza um político ideal.

Minha análise parte da interpretação e da observação de grupos focais realizados ao longo dos últimos anos em diversas regiões do Brasil. Assim, a investigação que apresento carrega, em sua essência, a experiência da escuta, algo cada vez mais raro em um mundo no qual todos possuem suas próprias convicções e justificativas.

Percorrer o Brasil ouvindo eleitores tem seus desafios, mas também oferece a rara oportunidade de conhecer diferentes povos que compartilham o mesmo país. Os ares europeizados do Sul contrastam com o Oeste em desenvolvimento e com seu clima quente e seco.

À medida que nos aproximamos da linha do Equador, encontramos populações que convivem com temperaturas elevadas e alta umidade. Ali, tudo parece ganhar novas formas e proporções, revelando um Brasil diverso, complexo e ainda carente de atenção em muitos aspectos. No Nordeste, entre ruas cheias de vida, música e movimento, encontramos uma população que acolhe com espontaneidade e sorriso aberto.

Em todas as regiões, a diversidade se manifesta nos sotaques, nos costumes, na cultura e na forma de viver. Contudo, ao longo dos anos, minhas próprias convicções foram sendo transformadas pela experiência da escuta. Sempre imaginei que encontraria diferenças profundas entre populações tão distintas. Na prática, porém, descobri algo surpreendente: por trás das particularidades regionais, o que mais existe entre os brasileiros são semelhanças.

As paisagens mudam, os sotaques mudam, os hábitos mudam. Mas as preocupações, os valores, os medos, as esperanças e as expectativas em relação à política revelam convergências muito maiores do que normalmente estamos dispostos a admitir.

Nasce daí a primeira unanimidade: todo político precisa ser honesto. A constatação pode soar como um clichê. Afinal, a maioria de nós se considera honesta, e a honestidade deveria ser um requisito básico para qualquer pessoa que exerça uma função pública.

No entanto, a sabedoria popular ensina que a realidade é mais complexa. Em tempos marcados pela desconfiança, por escândalos, golpes e desvios de conduta, a honestidade tornou-se um valor cada vez mais raro e, ao mesmo tempo, mais valorizado. Mais do que ser honesto, é preciso demonstrar honestidade e conquistar credibilidade perante a população.

Talvez resida aí um dos maiores desafios da disputa política contemporânea. Em um ambiente de permanente suspeita, os eleitores não buscam apenas propostas ou resultados; buscam sinais de integridade que lhes permitam confiar que o poder será exercido em benefício da coletividade, e não de interesses particulares.

Outra característica que nos une é o desejo por líderes empáticos e humanos. Essa qualidade, cada vez mais valorizada pelos eleitores, sinaliza a busca por alguém capaz de compreender suas necessidades, reconhecer suas dificuldades e enxergar a realidade para além dos números e dos discursos.

Mais do que um gestor eficiente, o eleitor procura uma liderança que demonstre sensibilidade diante dos problemas cotidianos e que seja capaz de estabelecer uma conexão genuína com as pessoas. Em um cenário marcado pela sensação de distanciamento entre representantes e representados, a empatia surge como um atributo fundamental para a construção da confiança.

Para completar esse conjunto de atributos que nos une sob o mesmo solo, destaco a previsibilidade. O brasileiro busca segurança. Procura alguém capaz de manter as coisas funcionando, sem sobressaltos, rupturas ou incertezas constantes.

Essa expectativa não está necessariamente associada à ausência de mudanças, mas à presença de estabilidade. O eleitor deseja líderes que transmitam confiança, coerência e capacidade de conduzir processos sem gerar a sensação permanente de risco ou improvisação. Em um país historicamente marcado por crises políticas, econômicas e institucionais, a previsibilidade torna-se um valor importante, pois oferece às pessoas a percepção de que é possível planejar o futuro e confiar nos rumos adotados.

Apesar do alerta de Haidt sobre nossa natureza moralista, aprendi, em diferentes ocasiões, que são justamente os valores morais que mais nos unem como nação. Mesmo pertencendo a grupos distintos, com visões de mundo, crenças e preferências políticas muitas vezes divergentes, encontramos nos valores compartilhados muito mais elementos de união do que de segregação.

Ao percorrer diferentes regiões do país e ouvir eleitores das mais diversas origens, percebi que honestidade, empatia e previsibilidade emergem de forma recorrente como atributos desejáveis em uma liderança política. Essas expectativas atravessam fronteiras geográficas, sociais e ideológicas, revelando que, por trás das disputas e polarizações que ocupam o debate público, existe um conjunto de valores comuns capaz de aproximar brasileiros que, à primeira vista, parecem irreconciliáveis.

Talvez a grande lição não seja que pensamos da mesma forma, mas que desejamos muitas das mesmas coisas. E é justamente nesse terreno comum que reside a possibilidade de reconstruir pontes em uma sociedade frequentemente descrita apenas por suas divisões.

José Carlos Sauer – Diretor do Instituto Methodus, especialista em comportamento político e graduado em Filosofia Política. Há mais de 25 anos atende disputas eleitorais, conduzindo pesquisas de opinião, interpretação de dados e análises, além do direcionamento estratégico para campanhas. Se você busca uma consultoria estratégica para sua disputa eleitoral, fale conosco por WhatsApp ou e-mail.

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