No Brasil das denúncias permanentes, da corrupção transformada em espetáculo cotidiano e das pesquisas tratadas como instrumentos balizadores das opiniões políticas, consolidou-se a percepção de que cada fato teria força suficiente para alterar completamente os rumos eleitorais do país. Como se cada nova crise, escândalo, operação policial, declaração ou narrativa produzida nas redes sociais fosse capaz de deslocar multidões instantaneamente em direção a um ou outro polo político, como um cardume que se dispersa e se reorganiza ao sabor da presença de seus predadores.
A política passa, então, a ser interpretada como um fluxo permanente de acontecimentos imediatos, quase sempre analisados de forma isolada, emocional e desconectada da memória histórica do comportamento eleitoral brasileiro.
Mas não é assim que as coisas funcionam. O histórico das eleições presidenciais brasileiras mostra justamente o contrário do que sugere o imediatismo político. O comportamento eleitoral possui permanências, estruturas e padrões muito mais sólidos do que o debate cotidiano costuma admitir. O eleitor reage aos acontecimentos do presente, mas raramente abandona de forma instantânea as identidades políticas, as memórias acumuladas e os vínculos construídos ao longo de décadas.
A história eleitoral brasileira demonstra que os grandes movimentos políticos costumam ser mais lentos, mais profundos e mais persistentes do que sugerem as manchetes do momento.
As eleições não são decididas apenas pelos acontecimentos da semana. São também resultado de identidades políticas construídas ao longo do tempo, experiências acumuladas pelos eleitores e vínculos que atravessam governos, crises e gerações. Por isso, compreender uma eleição exige olhar menos para a espuma dos acontecimentos e mais para as correntes profundas que movem o comportamento político da sociedade.
Poucos fenômenos revelam isso de maneira tão clara quanto a trajetória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva nas últimas décadas.
Os dados históricos demonstram que, mesmo diante do Mensalão, da Operação Lava Jato, do impeachment de Dilma Rousseff, da prisão de Lula e do crescimento do antipetismo, o campo político liderado pelo ex-presidente manteve níveis de votação extraordinariamente elevados.
Em 2002, Lula venceu com mais de 52 milhões de votos. Em 2006, ultrapassou os 58 milhões. Dilma Rousseff venceu em 2010 e 2014 sustentada, em grande medida, pela capacidade de transferência política do lulismo. Em 2018, mesmo impedido de concorrer e preso, Fernando Haddad alcançou aproximadamente 47 milhões de votos. Em 2022, Lula retornou ao poder com mais de 60 milhões de votos, o maior resultado eleitoral de sua trajetória.
Os números revelam algo que o imediatismo político frequentemente ignora: o lulismo deixou de ser apenas uma preferência partidária circunstancial.
A série histórica indica que determinados vínculos políticos sobrevivem às conjunturas e passam a funcionar como estruturas relativamente permanentes de comportamento eleitoral.
Isso significa que Lula não entra em uma eleição presidencial como qualquer outro candidato. Diferentemente de nomes que precisam construir conhecimento, legitimidade e vínculo emocional durante a campanha, Lula já inicia a disputa sustentado por uma memória política consolidada nacionalmente.
Seu eleitorado não é formado apenas por adesão ideológica. Ele envolve identificação social, reconhecimento simbólico, memória de ascensão econômica e sentimento de pertencimento político, especialmente entre parcelas historicamente excluídas da sociedade brasileira.
Mas a principal descoberta da série histórica talvez não esteja apenas na força eleitoral do lulismo. Ela está na constatação de que estruturas políticas duradouras continuam exercendo enorme influência sobre o comportamento dos eleitores, mesmo em uma época marcada pela hiperconectividade, pela aceleração da informação e pela sucessão permanente de crises.
A eleição de 2022 ilustra perfeitamente esse cenário. Lula venceu com mais de 60 milhões de votos, mas enfrentou uma disputa extremamente apertada contra Jair Bolsonaro, que alcançou mais de 58 milhões. O país revelou não apenas dois candidatos competitivos, mas duas identidades políticas capazes de mobilizar milhões de brasileiros mesmo após anos de desgaste, conflitos e intensa polarização.
Se o lulismo demonstrou capacidade de sobreviver a escândalos, crises e até à ausência temporária de seu principal líder, o bolsonarismo também revelou possuir características de uma estrutura política duradoura. A eleição de 2022 mostrou que a política brasileira já não está organizada apenas em torno de candidaturas, mas de identidades políticas profundamente enraizadas na sociedade.
No entanto, talvez o dado mais importante da série histórica esteja fora dos votos dos candidatos.
Mesmo com o crescimento contínuo do eleitorado brasileiro, que passou de 106 milhões de eleitores aptos em 1998 para mais de 156 milhões em 2022, o país manteve aproximadamente 38 milhões de eleitores desalentados, entre abstenções, votos brancos e votos nulos.
Esse contingente raramente ocupa o centro das análises políticas, mas ajuda a compreender um dos principais desafios da democracia brasileira contemporânea. Enquanto parte da população permanece intensamente mobilizada por identidades políticas cada vez mais fortes, outra parcela parece demonstrar crescente afastamento, desconfiança e fadiga em relação à política institucional.
A série histórica sugere que o Brasil contemporâneo não está dividido apenas entre esquerda e direita, lulistas e bolsonaristas. Talvez a divisão mais profunda seja entre aqueles que ainda acreditam que a política pode transformar suas vidas e aqueles que já deixaram de acreditar nisso.
Sob essa perspectiva, a política brasileira contemporânea não é sustentada por duas grandes estruturas eleitorais permanentes, mas por três.
De um lado, o lulismo. De outro, o bolsonarismo. E entre ambos, um contingente silencioso e crescente de milhões de brasileiros que se afastam gradativamente da política e das instituições democráticas.
Portanto, a principal descoberta da história recente das urnas brasileiras é simples: o Brasil não muda de opinião toda semana. Apesar das crises, dos escândalos e das narrativas que se sucedem diariamente, os eleitores continuam carregando consigo memórias, identidades e vínculos políticos muito mais duradouros do que imaginamos.
José Carlos Sauer – Diretor do Instituto Methodus, especialista em comportamento político e graduado em Filosofia Política. Há mais de 25 anos atende disputas eleitorais, conduzindo pesquisas de opinião, interpretação de dados e análises, além do direcionamento estratégico para campanhas. Se você busca uma consultoria estratégica para sua disputa eleitoral, fale conosco por WhatsApp ou e-mail.
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