A pesquisa Quaest, divulgada na última semana de abril e registrada no TSE sob nº RS-03000/2026, traz elementos relevantes para a compreensão da disputa eleitoral no Rio Grande do Sul.
A corrida ao governo do Estado ganha centralidade, sobretudo porque os dados dialogam diretamente com a análise que apresentei em 15 de abril, quando destaquei os efeitos da ausência de Edegar Pretto e a consequente reorganização dos votos no campo da esquerda. À época, a hipótese era clara: na ausência de Edegar, seu eleitor não migraria automaticamente para Juliana Brizola, mas tenderia, inicialmente, à indecisão.
A pesquisa Quaest confirma essa leitura. Na simulação estimulada de primeiro turno, os indecisos lideram com 34%, à frente de Juliana, com 24%, e de Zucco, com 21%, ambos em empate técnico.
Mais do que um dado isolado, esse resultado revela uma mudança estrutural no cenário: a saída de uma candidatura competitiva não produziu transferência automática de votos, mas abriu um espaço ainda em disputa.
A trajetória recente ajuda a compreender esse movimento. Em setembro de 2025, havia empate técnico entre os três principais nomes. Em novembro, Edegar manteve seu patamar, enquanto a disputa pelo segundo lugar se intensificou entre Juliana e Zucco. Em fevereiro de 2026, os três voltaram a se aproximar. Já em março, na última pesquisa do Instituto Methodus, Edegar aparecia com 21,3%, Zucco com 19,4% e Juliana com 18,8%, todos dentro da margem de erro.
Em abril, o cenário se reorganiza: a indecisão cresce de forma expressiva e passa a liderar a disputa. O eleitor fiel ao Partido dos Trabalhadores não migrou, ele suspendeu sua decisão. O desafio, portanto, não é apenas herdar esse eleitorado, mas reconstruir, dentro da candidatura de Juliana, a percepção de viabilidade que sustentava Edegar.
Esse cenário é reforçado por outro dado relevante: o elevado nível de desconhecimento dos candidatos. Zucco alcança 60%, enquanto Gabriel Souza chega a 77%. Mais do que desinformação, os dados sugerem um padrão de seleção de atenção: o eleitor prioriza a disputa presidencial e posterga sua decisão nas eleições estaduais.
Entre os eleitores que afirmam já ter uma escolha definitiva para o voto a governador (30%), emerge um recorte importante. A maioria desses eleitores está com Zucco (61%), indicando uma base mais consolidada. Gabriel Souza aparece na sequência, com 43%, enquanto Juliana, apesar de liderar a intenção de voto no primeiro turno, registra apenas 36% de decisão consolidada entre seus eleitores. O dado sugere que sua liderança se apoia, em parte, sobre um eleitorado ainda não estabilizado.
Juliana também apresenta o maior índice de rejeição: 35% afirmam que a conhecem, mas não votariam nela. Trata-se de um teto eleitoral relevante, que pode limitar sua expansão no curto prazo.
No caso de Gabriel Souza, o cenário é ainda mais desafiador. Mesmo diante de um elevado contingente de indecisos e de um eleitorado independente que atinge 45%, sua candidatura apresenta baixa capacidade de penetração: apenas 5% desse segmento o escolhe na simulação estimulada.
Esse dado reforça um risco já identificado anteriormente: o de Gabriel ser percebido como continuidade administrativa do atual governo, associado à figura de Eduardo Leite, mas sem densidade eleitoral própria. Até aqui, a pré-campanha não conseguiu romper essa barreira.
Em contraste, seu aliado ao Senado, Germano Rigotto, apresenta desempenho mais consistente, com 12% na combinação de votos estimulados da Quaest e (13,5%) na pesquisa Methodus de março. Rigotto demonstra capacidade de votação transversal, dialogando com diferentes campos ideológicos, o que reforça o caráter cada vez mais personalista da disputa.
Nesse contexto, Rigotto pode vir a desempenhar um papel estratégico como ativo político do MDB tradicional na sustentação da candidatura de Gabriel, contribuindo para ampliar sua legitimidade eleitoral e compensar uma fragilidade evidente: a dificuldade, até aqui, de se afirmar para além da condição de sucessor.
Os próximos meses serão decisivos. O cenário ainda está aberto, e a disputa não se dará apenas entre nomes, mas pela capacidade de cada candidatura de ocupar o espaço deixado pela indecisão. Porque, no atual momento, mais do que liderar, será determinante transformar presença em decisão.
José Carlos Sauer – Diretor do Instituto Methodus, especialista em comportamento político e graduado em Filosofia Política. Há mais de 25 anos atende disputas eleitorais, conduzindo pesquisas de opinião, interpretação de dados e análises, além do direcionamento estratégico para campanhas. Se você busca uma consultoria estratégica para sua disputa eleitoral, fale conosco por WhatsApp ou e-mail.
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