Recentemente assistimos a mais um daqueles absurdos que rondam a divulgação de pesquisas em anos eleitorais.
Na tentativa de corrigir a rota de censura imposta a uma pesquisa que não agradou determinado candidato à Presidência da República, o TSE propõe a criação de um selo destinado a premiar empresas que acertem o resultado das eleições.
A proposta cheira a intervenção. Afinal, o Tribunal passaria a ser o mediador daquilo que entende como um trabalho bem-feito, transformando a pesquisa de opinião em um instrumento de previsão de resultados. Ora, se essa fosse realmente a função das pesquisas, poderíamos utilizá-las para antecipar questões muito mais sensíveis do que uma eleição. Poderíamos prever o desfecho de guerras, crises econômicas ou outros eventos críticos para a nossa existência. Se assim fosse, certamente viveríamos em um mundo muito mais previsível.
Por óbvio, todo instituto de pesquisa eleitoral que se preza deseja antecipar, com a maior precisão possível, o resultado de uma eleição. Quanto mais assertivo for, maior será sua credibilidade perante a sociedade e o mercado. Entretanto, essa jamais foi, nem pode ser, a finalidade de uma pesquisa eleitoral.
Feita essa consideração inicial, apenas para deixar claro que não pretendemos predizer resultados, passo à análise de um aspecto que chama a atenção na última pesquisa do Instituto Paraná Pesquisas, registrada sob o nº RS-09313/2026 e divulgada no Rio Grande do Sul.
Entre as questões apresentadas, o Instituto perguntou aos entrevistados: “Nos últimos 10 dias, o(a) Sr.(a) participou de alguma celebração religiosa, como missa, culto ou outro tipo de cerimônia da sua religião?” Presume-se que a pergunta esteja relacionada à religião declarada pelo entrevistado, permitindo aferir seu grau de participação em celebrações religiosas.
Quando essa informação é cruzada com o perfil eleitoral, gênero, renda, escolaridade, condição de pessoa economicamente ativa (PEA) e intenção de voto, emerge um dado que merece reflexão.
Apesar de ser equivocada, é comum associarmos uma conduta mais conservadora à prática religiosa. Em uma época na qual a análise política tornou-se excessivamente binária e quase tudo parece decorrer de uma escolha ideológica, seria natural imaginar que os eleitores mais assíduos em celebrações religiosas estariam mais próximos dos candidatos identificados com a direita e mais distantes daqueles situados ao centro ou à esquerda.
Os números parecem, à primeira vista, reforçar essa percepção. Entre os eleitores de Zucco, 40% declararam ter participado de alguma celebração religiosa nos últimos dez dias. Entre os eleitores de Juliana Brizola, esse percentual é de 26%. Já entre os eleitores de Gabriel Souza, observa-se um equilíbrio: 13,7% responderam “sim” e 12,4% responderam “não”.
Se tomássemos esse comportamento como suficiente para explicar a escolha eleitoral, poderíamos concluir que os eleitores da direita praticam mais a celebração religiosa do que os eleitores da esquerda ou do centro. Nessa lógica, bastaria aos candidatos de direita percorrer igrejas e templos em busca de seus eleitores, enquanto os candidatos de esquerda deveriam concentrar suas campanhas em parques, bares e clubes, à procura daqueles que estariam afastados da religião para, com eles, celebrar a vida.
A caricatura evidencia o equívoco. Embora os dados revelem uma associação estatística, eles estão longe de autorizar uma explicação tão simplista do comportamento eleitoral. Ainda assim, é justamente esse tipo de leitura reducionista que tem predominado no debate público.
Observada por esse prisma, a sociedade parece dividir-se entre aqueles que oram e aqueles que rejeitam a religião como referência para suas escolhas políticas. Essa visão binária transforma campanhas eleitorais em disputas entre identidades rígidas e ideologias dogmáticas, reduzindo a complexidade da decisão do voto a uma sucessão de rótulos, como se o eleitor precisasse, necessariamente, escolher um dos lados.
Neste sentido, pesquisas eleitorais não produzem verdades absolutas, tampouco explicam, por si sós, o comportamento do eleitor.
Quando analisadas por especialistas em comportamento eleitoral, elas descrevem tendências, identificam associações e oferecem elementos para compreender a complexidade da decisão do voto.
O equívoco está em transformar uma correlação em explicação ou uma fotografia do presente em previsão do futuro. Da mesma forma que não cabe exigir de uma pesquisa que acerte o resultado das urnas, também não se pode reduzir a escolha eleitoral a uma única variável, seja ela a religião, a renda, a escolaridade ou qualquer outra característica do eleitor.
É justamente por reconhecer essa complexidade que a pesquisa de opinião permanece um importante instrumento para compreender a democracia, e não para simplificá-la.
José Carlos Sauer – Diretor do Instituto Methodus, especialista em comportamento político e graduado em Filosofia Política. Há mais de 25 anos atende disputas eleitorais, conduzindo pesquisas de opinião, interpretação de dados e análises, além do direcionamento estratégico para campanhas. Se você busca uma consultoria estratégica para sua disputa eleitoral, fale conosco por WhatsApp ou e-mail.
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