Resultados de pesquisas eleitorais podem impactar a própria disputa, influenciando o ânimo de militantes e apoiadores e, sobretudo, a interpretação sobre o estágio em que se encontra uma eleição. Por essa razão, a análise proposta neste artigo afasta-se de preferências e expectativas políticas para se concentrar em dados públicos e, portanto, passíveis de comparação.
Reuniremos os métodos de pesquisas em dois grupos:
O Método Presencial caracteriza-se pela realização da entrevista face a face e pressupõe a busca ativa e pessoal dos diferentes perfis de eleitores necessários à composição da amostra. Quando corretamente planejado e executado, permite alcançar um conjunto diversificado de entrevistados, contemplando diferentes características sociais, demográficas e territoriais e contribuindo para a representatividade dos resultados de uma região, estado ou país.
Uma de suas características centrais está, portanto, na busca ativa pelo entrevistado: é o pesquisador que se desloca até os diferentes segmentos da população definidos pelo desenho amostral, reduzindo a dependência da iniciativa ou da predisposição individual para participar da pesquisa.
No Método por Adesão, ao contrário, a participação depende, em maior medida, da iniciativa do próprio entrevistado diante do meio pelo qual a pesquisa lhe é oferecida, seja por telefone, redes sociais, plataformas digitais ou grupos de mensagens, como WhatsApp e Telegram.
Nesse caso, o próprio meio de acesso pode introduzir limitações à composição do conjunto de participantes. Uma lista de telefones restringe o universo aos contatos disponíveis e efetivamente alcançáveis; da mesma forma, pesquisas oferecidas em ambientes digitais dependem do acesso, da exposição e da disposição do indivíduo para interagir com aquele conteúdo.
Assim, enquanto a busca ativa procura alcançar os diferentes perfis definidos pelo desenho da pesquisa, a participação por adesão está mais sujeita a mecanismos de autoseleção. Essa diferença pode produzir conjuntos distintos de entrevistados e, consequentemente, influenciar os resultados obtidos.
Feita a distinção entre métodos, vamos agora comparar resultados de pesquisas, divulgadas no Rio Grande do Sul entre os dias 21 de agosto e 2 de setembro de 2026. Embora divulgadas em um intervalo de apenas 12 dias, as pesquisas apresentam diferenças expressivas em seus resultados. A tabela a seguir permite comparar essas variações à luz dos métodos empregados.
Pesquisa | A | B | C | D |
Data divulgação | 21/08/2026 | 24/08/2026 | 25/08/2026 | 02/09/2026 |
Método | Presencial | Presencial | Adesão | Adesão |
Luciano Zucco – PL | 34,4% | 26,0% | 32,0% | 44,3% |
Juliana Brizola – PDT | 31,4% | 23,0% | 38,0% | 37,5% |
Gabriel Souza – MDB | 11,3% | 9,0% | 19,0% | 10,4% |
Marcelo Maranata – PSDB | 4,1% | 2,0% | 4,0% | 2,3% |
Outros | 4,7% | 1,0% | 1,0% | 0,0% |
Branco/Nulo | 7,7% | 12,0% | 3,0% | 1,5% |
Não sabe | 6,3% | 27,0% | 3,0% | 4,0% |
Nas pesquisas presenciais A e B, os quatro principais candidatos concentram, respectivamente, 81,2% e 60,0% das respostas. Nas pesquisas por adesão C e D, essa concentração sobe para 93,0% e 94,5%. Observa-se, portanto, que os levantamentos por adesão apresentam um conjunto de entrevistados significativamente mais definido em torno das candidaturas apresentadas.
Essa diferença torna-se ainda mais evidente quando analisadas as categorias Branco/Nulo e Não sabe. Nas pesquisas presenciais, a soma dessas duas respostas alcança 14,0% na pesquisa A e 39,0% na pesquisa B. Nas pesquisas por adesão, os percentuais são de apenas 6,0% na pesquisa C e 5,5% na pesquisa D.
Considerando a média dos dois levantamentos de cada método, Branco/Nulo e Não sabe representam 26,5% nas pesquisas presenciais, contra somente 5,75% nas pesquisas por adesão, uma diferença de 20,75 pontos percentuais.
Os dados sugerem, assim, uma diferença importante na composição dos entrevistados efetivamente alcançados pelos dois métodos. Na pesquisa presencial, a busca ativa pode alcançar também o eleitor menos mobilizado ou menos predisposto a participar espontaneamente de uma pesquisa, incluindo aquele que ainda não definiu candidato, manifesta dúvida ou declara intenção de votar em branco ou anular o voto.
Nas pesquisas por adesão, a participação depende em maior grau da interação e da disposição do indivíduo diante do meio pelo qual a pesquisa é oferecida. Esse mecanismo pode favorecer a participação de eleitores mais dispostos a manifestar uma posição política, contribuindo para maior concentração das respostas entre os candidatos.
Os resultados conduzem, assim, a duas interpretações substancialmente distintas sobre o estágio da disputa eleitoral. De um lado, as pesquisas presenciais revelam uma eleição aberta e ainda em movimento; de outro, as pesquisas por adesão apresentam uma disputa mais definida e aparentemente estabilizada.
No primeiro cenário, a presença de um contingente expressivo de eleitores sem escolha definida indica a existência de um espaço eleitoral ainda disponível para ser conquistado. As posições dos candidatos representam o momento da pesquisa, mas não esgotam o mercado eleitoral: permanece uma parcela relevante de eleitores sobre a qual as campanhas ainda podem atuar.
Nas pesquisas por adesão, o retrato é diferente. A reduzida presença de Branco/Nulo e Não sabe produz a imagem de um eleitorado fortemente posicionado e de uma disputa muito mais consolidada. Nesse cenário, o espaço disponível para conquistar eleitores ainda sem candidato é reduzido e as possibilidades de crescimento de uma candidatura dependeriam predominantemente da transferência de votos entre candidatos.
Temos, portanto, duas fotografias distintas da mesma disputa: em uma, existe um contingente expressivo de eleitores ainda disponível; na outra, esse contingente praticamente desaparece.
A divergência possui consequências que ultrapassam a discussão estritamente metodológica. Para uma campanha eleitoral, interpretar a disputa como aberta e em movimento ou como definida e estabilizada conduz a diagnósticos e decisões estratégicas diferentes. No primeiro caso, a estratégia pode concentrar esforços na conquista do eleitor ainda sem candidato; no segundo, o crescimento passa a depender principalmente da capacidade de converter eleitores que já manifestam preferência por outras candidaturas.
Nesse cenário, a interpretação dos resultados exige conhecimento metodológico e capacidade analítica, especialmente quando essas informações subsidiam decisões estratégicas em uma campanha eleitoral.
José Carlos Sauer – Diretor do Instituto Methodus, especialista em comportamento político e graduado em Filosofia Política. Há mais de 25 anos atende disputas eleitorais, conduzindo pesquisas de opinião, interpretação de dados e análises, além do direcionamento estratégico para campanhas. Se você busca uma consultoria estratégica para sua disputa eleitoral, fale conosco por WhatsApp ou e-mail
Pesquisas analisadas