20 anos de eleições no Tocantins e o colapso da confiança política

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Fosse o Tocantins um estado de maior peso econômico ou político, certamente estaríamos diante de um debate nacional sobre o tema. A iniciativa do Instituto Methodus, descortina o drama político e democrático vivido no estado, oferecendo insumos concretos para compreender os efeitos da judicialização da política, o esvaziamento da representação e a realidade de um eleitorado que já não confia na mudança pelo voto.

Tenho convicção de que abordamos aqui um tema inédito e revelador, que oferece lições importantes sobre democracia, poder e confiança pública no Brasil contemporâneo.

Tenha uma boa leitura!

Nas últimas duas décadas, o Tocantins viveu sete trocas de comando no Executivo estadual, resultado de cassações, renúncias e afastamentos judiciais que se sucederam de maneira quase previsível.

De Marcelo Miranda a Wanderlei Barbosa, nenhum governador eleito pelo voto direto concluiu o mandato. Nesse ciclo contínuo de rupturas, o eleitor passou a votar menos, acreditar menos e se distanciar mais das disputas políticas.

A pesquisa inédita “Vozes da Classe Média”, realizada pelo Instituto Methodus durante o mês de Setembro, com eleitores tocantinenses, somada ao levantamento histórico das eleições de 2002 a 2022, revela que a instabilidade política se converteu em fadiga democrática: cresce a apatia, a desconfiança e a sensação de que o voto perdeu o poder de resolver.

Os dados das seis eleições estaduais realizadas entre 2002 e 2022 revelam uma tendência consistente de retração da participação popular e, como consequência, de erosão da confiança eleitoral. Nesse período:

  • A abstenção, que era de 14,3% em 2002, atingiu 23,8% em 2022.
  • Somados os votos nulos e brancos, o percentual de eleitores que comparecem, mas não escolhem, passou de 6,8% para 11,2%.
  • O índice agregado de “eleitores desalentados”, soma de abstenções, nulos e brancos, saltou de 21,1% para 35% do eleitorado total, ou seja, mais de um terço dos tocantinenses aptos a votar.

Esses números confirmam, de forma empírica, o que as percepções qualitativas já sugeriam: o eleitor médio se afastou da política não por indiferença, mas por desconfiança acumulada diante de um sistema que, em sua percepção, não respeita o resultado das urnas.

A curva de desalento acompanha diretamente as crises políticas que marcaram o estado: 2009 (cassação de Marcelo Miranda), 2014 (renúncia de Siqueira Campos), 2018 (nova cassação e eleição suplementar) e 2022 (afastamento de Mauro Carlesse e posse de Wanderlei Barbosa).

Cada ruptura institucional produziu picos de desmobilização eleitoral, demonstrando que a instabilidade política tem efeitos mensuráveis sobre o comportamento cívico.

O episódio mais recente, o afastamento de Wanderlei Barbosa, ecoa a mesma descrença captada nas urnas e nas pesquisas.

Na sondagem do Instituto Methodus, 42% dos entrevistados classificaram o afastamento como “político” ou “injusto”, enquanto 39% o consideraram “correto” ou “necessário”.
Os 19% que não souberam opinar reforçam o padrão do desalento: um público que se desconecta das disputas por não confiar nos atores.

O dado mais expressivo, entretanto, está no paralelo entre o Desalento Eleitoral (35%) e a apatia política (19%). Ambos expressam o mesmo fenômeno, o distanciamento emocional e simbólico do processo decisório, e integram a base afetiva da descrença democrática que hoje marca o Tocantins.

A reação à posse de Laurez Moreira mantém o mesmo padrão de desconfiança:

  • 36% viram a transição como “adequada” ou “necessária para estabilizar o Estado”;
  • 40% a consideraram “continuação dos mesmos acordos políticos”;
  • 24% declararam “não confiar em nenhum dos dois lados”.

Esses números reforçam a ideia de que o Tocantins desenvolveu uma cultura de atalho institucional, na qual a substituição de governantes por via judicial é vista, ao mesmo tempo, como solução e problema. O eleitor oscila entre a expectativa de ordem e a sensação de repetição: mudam os nomes, mas não o enredo.

Os recortes da pesquisa, Vozes da Classe Média, ajudam a compreender onde o ceticismo é mais intenso:

  • Mulheres: 46% consideram o afastamento “político ou injusto”, revelando maior sensibilidade à instabilidade institucional e menor tolerância ao improviso político.
  • Jovens de 18–24 anos: 30% não têm opinião formada — um sinal de desengajamento precoce, que indica distanciamento emocional da política tradicional.
  • Eleitores com renda até 3 salários-mínimos: 47% veem as decisões judiciais como acordos políticos; já entre as faixas de renda mais alta, 45% as consideram necessárias, refletindo maior adesão ao discurso da moralização institucional.
  • Idosos (60+) concentram o maior apoio à intervenção judicial (48%), expressando um padrão conservador e confiança na punição como forma de restabelecer a ordem.

Esses perfis demonstram que a confiança política deixou de ser uma variável partidária e passou a ser sociológica: depende da renda, da idade e da experiência histórica com o poder. Em outras palavras, a crise de confiança no Tocantins não divide apenas eleitores, divide gerações e classes sociais.

O cruzamento entre o histórico eleitoral (2002–2022 – fonte T.S.E) e a percepção atual da classe média revela um padrão coerente:

Indicador

2002

2022

Variação

Abstenção (%)

14,3

23,8

+9,5 pp

Nulos + Brancos (%)

6,8

11,2

+4,4 pp

Eleitores desalentados (%)

21,1

35,0

+13,9 pp

Essa trajetória confirma que a instabilidade política produziu erosão de legitimidade.
A cada afastamento, o eleitor perde parte da convicção de que seu voto tem efeito real.
A fadiga democrática no Tocantins não é um sentimento abstrato: é um fenômeno estatisticamente visível.

Os dados históricos e atitudinais convergem para uma constatação clara: o Tocantins vive uma democracia que resiste pela forma, mas se desgasta no conteúdo.

O eleitor participa, mas dúvida do resultado.

As instituições funcionam, mas não geram estabilidade.

A classe média, que poderia servir de âncora racional e moral do sistema, aparece fragmentada entre a punição e o cansaço: uma parte apoia o rigor judicial, outra o interpreta como manobra política, e ambas compartilham a sensação de impotência.

A fadiga democrática tocantinense é, portanto, a combinação de dois movimentos:

  1. Estrutural — o ciclo histórico de governos interrompidos e eleições suplementares;
  2. Psicológico — o desalento e a desconfiança que corroem a crença no voto como instrumento de mudança.

Romper esse ciclo exigirá mais do que novos nomes ou promessas de renovação: será preciso reconstruir o sentido de estabilidade como valor público. O Tocantins precisa reaprender a encerrar mandatos, não apenas a iniciá-los.

Às vésperas das eleições de 2026, o estado se encontra diante de um ponto de inflexão. Os dados indicam que mais de um terço do eleitorado já se encontra desalentado ou indiferente, um contingente capaz de definir o resultado pelo silêncio. Se essa apatia persistir, o risco é de uma disputa sem legitimidade emocional, vencida mais pela inércia eleitoral do que pela força das ideias.

Por outro lado, a mesma pesquisa revela uma janela de oportunidade: entre os eleitores que ainda acreditam na necessidade de “estabilizar o Estado”, cerca de 36%,  há espaço para um discurso de reconstrução institucional que recupere o valor do voto como instrumento de confiança. Essa minoria convicta pode se tornar o núcleo de um novo pacto democrático, desde que o debate político ultrapasse o personalismo e volte-se ao sentido coletivo do mandato.

O futuro das próximas eleições, portanto, dependerá menos de quem será o próximo governador e mais de como as instituições decidirão tratar o próprio ato de governar: como uma etapa provisória de poder, ou como um compromisso duradouro com a estabilidade e a responsabilidade pública?

A democracia tocantinense ainda resiste e aguarda por maturidade.

José Carlos Sauer – Diretor do Instituto Methodus, especialista em comportamento político e graduado em Filosofia Política. Há mais de 25 anos atende disputas eleitorais, conduzindo pesquisas de opinião, interpretação de dados e análises, além do direcionamento estratégico para campanhas.

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Pesquisa Vozes da Classe Média – Metodologia

A pesquisa foi realizada com 400 entrevistas digitais, aplicadas por meio de plataformas  acessadas via smartphones, tablets e computadores. O recrutamento dos respondentes ocorreu de forma orgânica e dirigida, durante a navegação cotidiana em ambientes digitais.

A amostra foi calibrada com base nas variáveis sexo, idade, escolaridade, renda e região, assegurando a representatividade do eleitorado tocantinense. A margem de erro é de ±5 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.

O público-alvo da pesquisa é composto por eleitores com ensino médio ou superior completos, mais de 30 anos e inserção ativa no mercado de trabalho. Esse grupo é especialmente sensível às variações econômicas e à efetividade das políticas públicas, sobretudo nas áreas de segurança, emprego, educação e desenvolvimento regional.

A pesquisa utilizou a Methodus ID – Inteligência Digital, metodologia exclusiva do Instituto Methodus para coleta, calibração e análise de dados via plataformas digitais, com foco em representatividade eleitoral.

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