As eleições de 2026, tanto no âmbito estadual quanto nacional, podem ser avaliadas sob diferentes perspectivas. Particularmente, considero que uma das mais interessantes é a comparação dos resultados entre eleições. Por óbvio, esse exercício somente pode ser realizado após a conclusão de cada etapa do pleito, seja no primeiro ou no segundo turno.
Em julho de 2025, ao analisar O avanço conservador e os limites da resistência progressista no Sul do Brasil, ressaltei o declínio do centro político e a dificuldade da esquerda em resistir à crescente influência conservadora na região. Naquela oportunidade, destaquei que Santa Catarina e Paraná apresentavam experiências políticas que poderiam servir de referência para o eleitorado gaúcho em 2026.
Outro aspecto foi abordado em junho de 2026, no artigo O Território Comum dos Brasileiros – O Que os Eleitores Esperam de seus Líderes, quando identifiquei o desejo de previsibilidade como uma expectativa importante do eleitor brasileiro. Mais do que mudanças ou rupturas, o eleitor busca segurança e lideranças capazes de manter as coisas funcionando, sem sobressaltos ou incertezas constantes.
Finalizado o primeiro turno, os resultados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) permitem investigar dois fenômenos que considero particularmente relevantes: o avanço territorial da direita no Rio Grande do Sul e a permanência do desalento eleitoral no Brasil.
O primeiro fenômeno refere-se ao avanço da direita no Rio Grande do Sul, associado a uma pauta de costumes que soube resgatar elementos da identidade gaúcha, sem recorrer a uma abordagem excessivamente nostálgica ou artificial. A valorização do que é nosso encontrou correspondência em um discurso que apresentava experiências consideradas bem-sucedidas em outros estados como exemplos que poderiam ser reproduzidos no Rio Grande do Sul.
Nesse contexto, Luciano Zucco construiu acertadamente a narrativa de que o Rio Grande Pode Mais, associando o desejo de mudança à valorização da identidade regional. A ausência de uma resistência discursiva competente por parte de seus adversários contribuiu para que essa mensagem ocupasse um espaço importante na disputa eleitoral.
Os resultados do primeiro turno demonstram a dimensão territorial desse avanço. A comparação entre as eleições de 2022 e 2026 revela uma mudança expressiva na distribuição das candidaturas que lideraram a votação nos municípios gaúchos.
Em 2022, Onyx Lorenzoni ficou à frente de seus adversários em 299 municípios. Quatro anos depois, Luciano Zucco conquistou a primeira colocação em 475 municípios. No campo da esquerda, o movimento foi inverso. Edegar Pretto liderou a votação em 146 municípios em 2022, enquanto Juliana Brizola alcançou a primeira colocação em apenas 22 municípios em 2026.
Outro resultado relevante aparece nos 45 municípios em que Eduardo Leite havia liderado a votação em 2022. Em todos eles, Luciano Zucco passou a ocupar a primeira colocação em 2026.
Essa mudança na distribuição territorial das candidaturas evidencia uma reorganização importante das preferências políticas no estado. Mais do que o crescimento de uma candidatura, os resultados indicam a expansão de um campo político sobre territórios anteriormente liderados por diferentes alternativas eleitorais.
O avanço da direita, portanto, não pode ser compreendido exclusivamente como resultado de uma campanha eleitoral bem-sucedida. Ele também sugere a existência de expectativas que encontraram correspondência em uma narrativa capaz de combinar identidade regional, desejo de mudança e promessa de previsibilidade.
O segundo fenômeno refere-se ao comportamento de uma parcela expressiva do eleitorado brasileiro que permanece distante da escolha entre os candidatos.
Retomamos aqui o conceito de eleitor desalentado, compreendido, para fins desta análise, como o conjunto dos eleitores que se abstêm ou comparecem às urnas, mas votam em branco ou anulam o voto.
Após cada eleição, essa parcela do eleitorado costuma ser lembrada como um contingente potencialmente decisivo, capaz de alterar os resultados caso passe a participar efetivamente da escolha dos candidatos. Entretanto, a comparação das últimas três eleições presidenciais revela um comportamento agregado relativamente estável, especialmente entre 2022 e 2026.
Composição nacional do desalento eleitoral — 2018 a 2026
Indicador | 2018 | 2022 | 2026 |
Eleitores aptos | 147.305.825 | 155.758.572 | 157.828.968 |
Eleitores Desalentados | 40.254.330 | 37.823.378 | 38.859.062 |
Desalento sobre aptos | 27,33% | 24,28% | 24,62% |
Fonte: TSE.
Os números demonstram que, apesar das mudanças no cenário político e da intensidade das disputas eleitorais, uma parcela significativa do eleitorado continua sem destinar seu voto a qualquer candidato. Entre 2018 e 2026, o percentual de desalento passou de 27,33% para 24,62%, uma redução de 2,71 pontos percentuais. Nas duas eleições mais recentes, entretanto, a diferença foi de apenas 0,34 ponto percentual.
Essa relativa estabilidade permite questionar a expectativa, frequentemente manifestada nas campanhas nacionais, de que a mobilização dos eleitores ausentes, dos votos brancos e dos votos nulos possa, por si só, alterar significativamente o resultado de uma eleição. Embora não seja possível afirmar que se trata sempre dos mesmos indivíduos, os resultados indicam a persistência de um contingente expressivo de eleitores que não participa da escolha entre os candidatos.
Essa parcela da população possui expectativas, necessidades e interesses que não parecem encontrar representação suficiente nas alternativas eleitorais disponíveis. Sua permanência ao longo das eleições sugere que o problema não se limita às circunstâncias de uma campanha ou à capacidade de mobilização dos candidatos. Trata-se de um fenômeno que merece atenção das lideranças políticas não apenas durante os períodos eleitorais, mas principalmente durante o exercício dos governos, quando as expectativas dos cidadãos podem ser efetivamente atendidas ou frustradas.
Os dois fenômenos analisados revelam comportamentos distintos, mas igualmente importantes para compreender a relação dos brasileiros com a política.
No Rio Grande do Sul, observamos uma expressiva reorganização territorial das preferências eleitorais, com o avanço de uma candidatura que conseguiu associar identidade regional, desejo de mudança e expectativas de previsibilidade.
No cenário nacional, encontramos uma parcela significativa do eleitorado que, apesar das transformações políticas e da sucessão de disputas, permanece sem destinar seu voto a qualquer candidato.
Enquanto uma parte dos eleitores encontra novas alternativas para expressar suas expectativas, outra continua distante das opções apresentadas. Ambos os comportamentos sugerem que as decisões eleitorais são influenciadas por experiências, percepções e expectativas que ultrapassam o período das campanhas.
Compreender essas diferentes realidades exige olhar para além dos vencedores e derrotados de cada eleição.
Afinal, os resultados revelam não apenas quem conquistou a preferência dos eleitores, mas também os limites da representação política e a capacidade das lideranças de responder às expectativas da sociedade.
José Carlos Sauer – Diretor do Instituto Methodus, especialista em comportamento político e graduado em Filosofia Política. Há mais de 25 anos atende disputas eleitorais, conduzindo pesquisas de opinião, interpretação de dados e análises, além do direcionamento estratégico para campanhas. Se você busca uma consultoria estratégica, fale conosco por WhatsApp ou e-mail