Sob a Superfície: O Que a Filiação Partidária Revela para 2026

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Conforme demonstrado no artigo anterior, “O Colapso Invisível: Como a Estagnação Ameaça os Partidos”, a estagnação da base de filiados, em contraste com o aumento contínuo do eleitorado, revela a possibilidade da limitação de identificação partidária pelo eleitorado, como se um “teto” tivesse sido alcançado. Além disso, não houve aprimoramento do perfil eleitoral que efetivamente se identifica com uma legenda partidária. As perdas são consideráveis quando a estagnação é reforçada, pois ameaça a vitalidade dos partidos brasileiros, reduzindo sua capacidade de renovação, articulação territorial e competitividade eleitoral. Este artigo aprofunda a análise iniciada anteriormente, observando o movimento de filiações ao longo da série histórica de 2014 a 2024, buscando compreender a evolução partidária e ideológica, bem como suas implicações para o cenário eleitoral de 2026.  Os olhos agora serão voltados para o desempenho partidário e ideológico através do indicador comportamental de filiação partidária.

Utilizando dados históricos disponíveis nas bases do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e inteligência preditiva, esta análise busca identificar padrões de crescimento, estagnação e retração da variável comportamental de filiação partidária. Como nos ensina Downs (1957), a identificação partidária funciona como um atalho cognitivo: ela reduz os custos de processamento de informação para o eleitor, conferindo estabilidade ao sistema partidário. Entender o comportamento dos filiados, portanto, é também compreender as bases de sustentação dos partidos para disputas eleitorais futuras.

Para a observação concreta da filiação partidária, nesta análise foi considerado somente o número absoluto de filiados por partido durante cada ano do período histórico, desconsiderando no cálculo as candidaturas para cargos eletivos das respectivas eleições do ciclo histórico. Também, considera movimentações das legendas durante o período analisado, como fusões, troca de sigla, encerramento etc. Não menos importante, para entender as movimentações de comportamento político e ideológico, foi realizado o agrupamento das legendas em Direita; Centro-Direita; Centro; Centro-Esquerda e Esquerda.

Observando primeiramente o desenvolvimento dos partidos, a evolução da filiação, no período histórico de 2014 a 2024, revela três movimentos principais: estabilidade, crescimento e retração. Entre os partidos tradicionais, apenas o PL apresentou crescimento expressivo (+4,58%), consolidando-se como força estruturada no campo conservador. MDB, PDT e PP sofreram leves retrações, enquanto o PSDB manteve estabilidade, refletindo dificuldades na renovação de suas bases. O PT, com estabilidade de +0,63%, manteve sua base histórica, um feito relevante diante da volatilidade do período.

Entre os emergentes, destaca-se o crescimento expressivo do partido NOVO (+148,46%), embora ainda possua uma base pequena em comparação aos partidos tradicionais. O UNIÃO, fruto da fusão entre DEM e PSL, ampliou consideravelmente seu número de filiados, mas enfrenta o desafio de consolidar identidade própria.

Na outra ponta, partidos como Solidariedade (-3,04%), Patriota (-2,75%) e Cidadania (-1,20%) mostram sinais claros de retração, elevando o risco de perda de relevância e sobrevivência política.

Categoria

Partido

Tendência

Crescimento Consistente

PL, NOVO (base pequena)

Expansão de base

Estabilidade

PT, PSDB

Base preservada, sem grande crescimento

Retração Leve

MDB, PDT, PP

Pequena perda de base

Retração Crítica

Solidariedade, Patriota, Cidadania

Alto risco de irrelevância

Regionalmente, destaca-se a presença consolidada do PT no Nordeste, que continua sendo bastião da esquerda e do centro moderado, mas partidos como PP conseguem se manter fortes por estruturas estaduais bem enraizadas. No Norte, a fragmentação é alta. Partidos médios conseguem conquistar hegemonias onde tradicionais perderam força. O Centro-Oeste destaca-se por ser uma região ainda mais aberta para a direita moderada e conservadora, mas o MDB conserva bases históricas. Sudeste está altamente competitivo, com partidarização pulverizada. Destaca-se a presença consolidada do PDT no Rio de Janeiro que, apesar da perda eleitoral nacional, mantém sua estrutura fluminense ainda forte nos quadros sindicais e municipais. O Sul mistura bases conservadoras e centristas, mas está mais sujeito a variações eleitorais rápidas.

Posteriormente, ao agrupar os partidos por alinhamento ideológico, a distribuição regional da filiação revela uma consolidação ideológica marcante. A centro-direita domina o Sul, Sudeste e Centro-Oeste, enquanto a esquerda preserva força no Nordeste. O Norte apresenta alta fragmentação, embora com avanço conservador em vários estados.

Essa configuração demonstra que a centro-direita expandiu seu território político, enquanto a esquerda, ainda forte em redutos tradicionais, enfrenta o desafio de reconquistar espaços urbanos no Sul e Sudeste. O centro político, representado por MDB e PSD, resiste em áreas pragmáticas, mas sem sinalizar crescimento relevante.

Região

Ideologia Predominante

Observação

Sul

Centro-Direita

Domínio consolidado

Sudeste

Centro-Direita

Disputa com resistência urbana

Centro-Oeste

Centro-Direita

Força conservadora moderada

Nordeste

Esquerda

Reduto progressista

Norte

Centro-Direita/Fragmentado

Avanço conservador em partes

As mudanças nas bases de filiados têm implicações diretas na organização e competitividade eleitoral. Como observou Downs (1957), a identificação partidária é um recurso fundamental para mobilizar o eleitorado e estruturar o sistema político.

Partidos que expandem sua base chegam a 2026 em posição privilegiada para disputas majoritárias e proporcionais, embora os emergentes ainda dependam de ampliação significativa de suas bases. Por outro lado, partidos em estagnação ou retração precisarão investir pesadamente em renovação de lideranças, fortalecimento territorial e renovação de suas estruturas para manter relevância política.

O cenário de filiações partidárias de 2014 a 2024 revela tendências que serão decisivas para a eleição de 2026. PL e UNIÃO emergem como protagonistas no campo conservador, enquanto o PT mantém sua força na esquerda nacional. O MDB, apesar da retração, segue como articulador fundamental em alianças políticas devido à sua capilaridade.

Ideologicamente, a centro-direita consolida domínio em três das cinco regiões do país, podendo se apresentar como o bloco dominante para 2026, principalmente em disputais estaduais e majoritárias. A esquerda resiste e deverá defender seus territórios históricos, como o Nordeste, e buscar ilhas urbanas progressistas no Sul e Sudeste. O centro político, por sua vez, será decisivo em disputas apertadas e fundamental em alianças, embora precise de reposicionamento estratégico para encabeçar chapas majoritárias.

Para 2026, os partidos precisarão combinar fortalecimento interno às bases de filiação com renovação de lideranças e discursos. A filiação partidária, mais do que uma formalidade burocrática, é um indicador da vitalidade política e organizacional das legendas.

Investir na compreensão e ampliação das bases sociais será um diferencial competitivo para os partidos que desejam disputar com chances reais os espaços de poder em um cenário cada vez mais fragmentado e competitivo.

Schaiany Stallivieri é Socióloga, Pós-graduanda em Ciência Política, pesquisadora em Comportamento Político, Diretora do Instituto Methodus e Host do PodCast Política – Voto – Poder.

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