Quando as propostas não bastam: o debate pelo olhar do eleitor

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No último domingo, 9 de agosto, tive a satisfação de acompanhar, ao vivo, o debate promovido pelo Grupo Bandeirantes com os candidatos ao Governo do Estado do Rio Grande do Sul, a convite do gerente de Jornalismo da Rádio Bandeirantes Porto Alegre e da BandNews FM Porto Alegre, Guilherme Macalossi.

Os debates são, para mim, um dos momentos mais interessantes de uma campanha eleitoral. Por isso, compartilho algumas percepções sobre a dinâmica que pude acompanhar de perto, exercitando um olhar a partir da perspectiva do eleitor.

Faço isso com base na experiência acumulada no monitoramento de debates em tempo real, acompanhando eleitores enquanto assistem e avaliam os candidatos. Para o eleitor, o debate representa uma oportunidade de observá-los quase sem filtros. Cada gesto, palavra ou enfrentamento pode depor a favor ou contra uma candidatura, permitindo avaliar qualidades, postura e capacidade de responder às situações que surgem ao vivo.

No debate da Bandeirantes, participaram Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL), Gabriel Souza (MDB) e Marcelo Maranata (PSDB). Há um elemento que ajuda a compreender a dinâmica daquela noite: As forças antagônicas, ou a polarização efetiva entre oponentes diretos, parecem ter sido atenuadas neste primeiro turno. Isso não significa ausência de divergências, mas faz com que parte da diferenciação entre as candidaturas se desloque para propostas que, embora apresentadas sob diferentes enfoques, guardam certa similaridade.

A educação é um bom exemplo. Zucco aposta nas escolas cívico-militares; Juliana, nas escolas de tempo integral; Maranata, na educação empreendedora; enquanto Gabriel defende a expansão do ensino técnico. São caminhos distintos, mas que orbitam em torno de soluções já conhecidas pelo eleitor. Dinâmica semelhante aparece em temas como segurança, desenvolvimento, resiliência climática, saúde e segurança.

Neste sentido, quando o conteúdo programático oferece menor capacidade de diferenciação, outros elementos ganham importância. Não importa apenas o que o candidato propõe, mas como se posiciona, reage aos adversários, quais valores transmite e, sobretudo, que percepção consegue construir diante do eleitor.

É a partir dessa perspectiva que proponho observar os quatro candidatos.

Comecemos por Luciano Zucco. O candidato chega à sua primeira campanha majoritária impulsionado, em grande medida, pelo voto ideológico. Sua força está em um eleitorado que tende a alinhar o voto local ao mesmo campo político com o qual se identifica nacionalmente.

Se uma parcela expressiva da base bolsonarista já se encontra próxima de Zucco, seu desafio passa a ser conquistar eleitores fora desse espectro. É assim que podemos compreender a versão light apresentada no debate. Ao evitar uma polarização permanente, o candidato, procura abrir uma janela junto ao eleitor indeciso e ser percebido como possibilidade de voto para além de sua base. Para isso, recorre a exemplos familiares e incorpora à fala valores morais e cívicos capazes de produzir identificação.

Juliana Brizola também se vincula a valores, embora por outro caminho. Criada no seio do trabalhismo, recebe de seu avô, Leonel Brizola, uma herança política ancorada na tradição, associando desenvolvimento, trabalho e atuação do Estado.

Essa identidade permite à candidata transitar de forma transversal, acomodando apoios da esquerda à direita sem que isso, até aqui, produza maiores questionamentos à sua imagem. O apoio do PT é um bom exemplo, Juliana ampliou sua base política preservando a capacidade de receber apoios de diferentes campos e sem parecer subordinada a nenhum deles.

Marcelo Maranata resgata o municipalismo como eixo de sua candidatura. O ex-prefeito procura transformar a experiência acumulada em Guaíba em exemplo da gestão que pretende levar ao Governo do Estado, recorrendo constantemente à sua trajetória pessoal e administrativa.

A multiplicidade de exemplos, entretanto, por vezes dispersa sua narrativa e dificulta ao eleitor identificar sua mensagem central. Seu desafio é projetar a experiência de Guaíba para além das fronteiras do município e convertê-la em credencial para governar o Estado.

Maranata também recorre à própria trajetória, do menino que começou trabalhando como engraxate até chegar à Prefeitura, como demonstração de superação. É uma história potencialmente inspiradora, mas que precisa despertar identificação em um eleitor que ainda conhece pouco o candidato. Sem essa conexão, corre o risco de permanecer apenas como uma boa história, sem se converter em atributo eleitoral.

Gabriel Souza, por sua vez, surge como o representante mais direto do atual governo e com o desafio de conduzir esse projeto político a um terceiro mandato consecutivo. Sua candidatura carrega o sentido de prorrogação de um governo que, paradoxalmente, é percebido pelo eleitor em um ciclo de encerramento.

Gabriel coloca um pé na canoa da continuidade e outro na canoa da novidade: precisa reivindicar os resultados do governo do qual participa e, ao mesmo tempo, convencer o eleitor de que representa algo além de sua continuidade. Essa dupla posição dificulta a construção de uma identidade própria.

Sua condição de vice-governador produz, assim, um paradoxo. O cargo lhe oferece experiência e proximidade com a administração estadual, mas não necessariamente protagonismo aos olhos da população. Para o eleitor que ainda conhece pouco sua atuação, permanece uma pergunta simples: afinal, quem é Gabriel Souza e qual foi o seu papel neste governo?

Responder a essa e a outras questões é tarefa das campanhas eleitorais.

Observo que desde as eleições de 2014, o eleitor vem postergando sua decisão e concentrando maior atenção na disputa à medida que se aproximam os últimos dias da campanha. Será, portanto, na reta final, que o tempo da dúvida começara a ceder espaço à necessidade de escolha.

Os debates eleitorais tendem, então, a ganhar protagonismo, oferecendo ao eleitor a oportunidade de confrontar propostas, comportamentos, valores e significados, contribuindo assim, para a construção da decisão do voto a Governador(a) do Rio Grande do Sul.

José Carlos Sauer – Diretor do Instituto Methodus, especialista em comportamento político e graduado em Filosofia Política. Há mais de 25 anos atende disputas eleitorais, conduzindo pesquisas de opinião, interpretação de dados e análises, além do direcionamento estratégico para campanhas. Se você busca uma consultoria estratégica para sua disputa eleitoral, fale conosco por WhatsApp ou e-mail.

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