A força que protege é a mesma que fere?

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Uma análise sobre a megaoperação nos Complexos do Alemão e da Penha, seus efeitos políticos e o papel da segurança pública na disputa pelo poder no Rio de Janeiro em 2026.

A megaoperação realizada nos Complexos do Alemão e da Penha, no fim de outubro de 2025, consolidou-se como um dos momentos mais duros e simbólicos da história recente do Rio de Janeiro. A ação reacendeu o debate sobre a política de segurança no estado e suas implicações sociais e institucionais, recolocando o tema no centro da agenda pública e transformando-o em um dos eixos estruturantes das próximas eleições estaduais.

O que se seguiu foi um turbilhão de análises. De um lado, críticas severas classificaram a operação como um desastre estratégico e humanitário, revelando uma política de segurança que aposta na letalidade como espetáculo. As denúncias sobre o uso excessivo da força, a falta de transparência e a desarticulação entre os níveis de governo reacenderam o debate sobre o cumprimento da ADPF das Favelas. Norma que, desde 2020, define limites rigorosos para operações em áreas vulneráveis. Organizações de direitos humanos pediram investigação independente, e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública lembrou que o desafio é menos ideológico e mais jurídico: nenhuma política se sustenta fora da legalidade.

Em contraponto, editoriais e análises mais próximas ao governo defenderam a operação resposta inevitável ao avanço das facções armadas e do poder de fogo do Comando Vermelho. Nessa leitura, a inação equivaleria à rendição: sem ofensivas pontuais, o Estado perderia completamente o controle territorial para organizações criminosas que já operam como governos paralelos.

Ainda assim, até os defensores da ação reconhecem que operações desse tipo, por si só, não resolvem o problema. O consenso possível é que o enfrentamento armado precisa ser parte de uma estratégia mais ampla, baseada em inteligência, tecnologia, presença institucional e políticas sociais de reconstrução.

O impacto político da operação é inegável. Ela altera o ritmo da disputa eleitoral no estado, recolocando a segurança como eixo de campanha. A disputa vem sendo medida ao longo de 2025, procurando entender a temperatura do eleitor de acordo com os acontecimentos e movimentações dos possíveis candidatos e alianças. Hoje, entre todas as divulgações de pesquisas analisadas, percebe-se a liderança de Eduardo Paes – PSD na corrida pelo governo estadual, com percentuais que variam de 43% a 57% nas intenções de voto, dependendo do instituto e do cenário testado. Seus adversários mais citados: Rodrigo Bacellar – União Brasil, Tarcísio Motta- PSOL e Washington Reis – MDB oscilam entre 6% e 12%, mantendo distância considerável de Eduardo Paes, independentemente da ideologia ou posicionamento tomado.

O comportamento dos possíveis candidatos diante do tema da segurança pública é balizador no seu desempenho durante a preparação para o próximo pleito. Eduardo Paes, atual prefeito da capital, procura projetar uma imagem de gestor pragmático, defendendo a ampliação do papel das guardas municipais e propondo a criação de uma Força de Segurança Municipal armada, integrada às polícias estaduais. A proposta, porém, divide opiniões: para uns, sinaliza ousadia institucional; para outros, flerta com o risco de sobreposição de forças e de uma política de segurança paralela.

Rodrigo Bacellar, por sua vez, se apresenta como herdeiro direto do governador Cláudio Castro -PL e autor do Pacote de Enfrentamento ao Crime na Alerj, mantendo um discurso de linha dura e prometendo continuidade às políticas de repressão.

Tarcísio Motta, pelo PSOL, propõe o caminho inverso, apostando na prevenção e na desmilitarização das guardas. Já nomes emergentes da federação União-PP, como Rodolfo Landim e Márcio Canella, enfatizam a tecnologia e a vigilância por câmeras como solução de eficiência.

O apoio declarado de Cláudio Castro a Bacellar busca preservar a base governista e garantir a continuidade do projeto político. O governador aposta em manter o controle da máquina estadual sob o mesmo campo ideológico e operacional. Entretanto, a escolha expõe ruídos internos. O vice-governador Thiago Pampolha – MDB e setores do PL avaliam alternativas, preocupados com o desgaste da imagem governista após a operação e com a dificuldade de sustentar a narrativa do “combate firme” diante do alto custo humano. A herança deixada por Castro, marcada por obras e resultados administrativos, mas também por uma política de segurança contestada, se tornará inevitavelmente um divisor de águas na campanha. O sucessor herdará não apenas uma estrutura política robusta, mas também o ônus das mortes, da desconfiança e da cobrança social por resultados concretos.

A eleição de 2026 tende, assim, a se transformar em um referendo sobre o modelo de segurança que o Estado deseja adotar. Mais do que uma disputa entre nomes, será uma escolha entre duas visões de poder público: a que aposta na força como resposta imediata ao caos e a que busca equilibrar autoridade e inteligência institucional. Eduardo Paes entra com base consolidada na capital e discurso de gestão; Bacellar representa a continuidade da lógica de enfrentamento; e Tarcísio Motta, com menor alcance, tenta vocalizar a insatisfação social de quem sente os efeitos diários da violência.

As previsões para o pleito ainda são abertas, mas o que se consolida é a percepção de que o Rio de Janeiro voltará a ser laboratório de um debate nacional: o da relação entre violência, poder e legitimidade democrática. Como bem disse Weber. “O Estado é a comunidade humana que, dentro de determinado território, reivindica com êxito para si o monopólio do uso legítimo da força física”.  A operação de outubro mostrou, de forma dolorosa, o quanto esse monopólio ainda é disputado, e o quanto o exercício dessa força precisa de base moral e institucional para não se converter em tragédia.

Mais do que respostas imediatas, o momento pede um olhar apurado aos fatos. É preciso compreender como a percepção de segurança influencia o voto, as alianças e o imaginário político. Só o estudo rigoroso e a observação empírica podem transformar a operação mais letal da história recente do Rio em aprendizado e, quem sabe, no início de um novo ciclo de políticas públicas mais inteligentes, humanas e eficazes.

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